É de manhã cedo e você está saindo de carro com o motor frio. Tenta uma primeira vez, uma segunda e, finalmente, na terceira tentativa ele pega. Na subida, o carro geme, sofre, mas acaba subindo. Você pensa, há pouco tempo ele era uma máquina, agora, mais parece uma carroça.
No primeiro sinal, um flanelinha vem oferecendo seu trabalho, você clica no botão e sobe a janela rapidinho. Olhando a cidade à sua volta, começa a reparar como ela está poluída. Como é possível tanta propaganda por metro quadrado?
No segundo farol, uma mocinha uniformizada e mascando chicletes oferece um panfleto cheirando a óleo diesel, ela é bonitinha, você aceita o folheto, lê e só depois é que se toca, de que não precisa comprar um apartamento e não consegue entender porque constroem prédios tão sem estilo?
No próximo semáforo, é a vez de um trombadinha. Sem ser convidado, ele mete a cabeça pela janela, querendo levar um trocado. Você é rápido, pisa no acelerador e o trombadinha já é passado. No próximo sinal, farol, semáforo ou sinaleiro, escolha o que lhe for mais familiar, o que aparece? Um comerciante informal oferecendo uma grande promoção, compre duas laranjadas quentes e ganhe uma gelada! E la Nave Va!
Finalmente, chega em seu escritório. Chão de mármore, sim senhor!
O paraíso. Liga o computador e, graças a Deus, começa a navegar pelas ondas da Web. A conexão está um pouco lenta, você tenta uma primeira vez, uma segunda. Deve ser o horário. Na terceira tentativa, finalmente, é completada. Ao receber seus e-mails, o computador range, sofre, mas acaba finalizando. Você pensa, há pouco tempo era um modelo tão potente, agora, mais parece um 486.
Entrou na Internet, já no primeiro site, como mágica, uma janelinha vem oferecendo ofertas imperdíveis, você clica e vapt, ela desaparece rapidinho. Olhando o site à sua frente, começa a reparar como ele é poluído. Como é possível tanta propaganda por centímetro quadrado? No próximo site, uma sensual top model cibernética oferece uma assinatura, ela é um avião, você clica em sim e só depois é que se toca, que você não precisava assinar mais um jornal eletrônico. E justamente com um site assim tão sem estilo?
Na sua caixa postal, você tromba com um e-mail de alta periculosidade, o terror das listas de discussão, procurado vivo ou morto: O spam, que sem ser convidado, se mete em sua caixa de entrada, oferecendo um novo vírus. Você é rápido no gatilho, deleta, exclui e o tal spamer já é passado. No próximo site, sítio, website ou homepage, escolha o que lhe for mais familiar, o que aparece? Um novo Banner oferecendo uma grande promoção, compre duas meias calças e ganhe uma meia taça! E La Nave Vá!
Finalmente, chega o fim do expediente. Liga o motor do carro, graças a Deus, é sexta-feira e você cai de cabeça na vida real.
Estar na Internet está mais para trafegar do que para navegar. Estão presentes os engarrafamentos, que nos atordoam pela demora na transmissão de dados, as lombadas eletrônicas, que registram nossos passos pela Web, as avenidas mal sinalizadas, que nos fazem rodar em círculos por sistemas de buscas incompletos, as ruas sem saídas, que nos deixam perdidos em site mal estruturados e confusos, placas sinalizadoras mal posicionadas que nos impedem de ver aquilo que gostaríamos de estar vendo e que clicamos, clicamos, mas acabam sempre voltando a aparecer nos cruzamentos.
Ninguém vai estranhar portanto, se logo, logo, a confusão na rede for tanta que estaremos navegando, ou melhor, trafegando, de acordo com o rodízio: Dias pares, telefones com final ímpar e dias ímpares, para telefones pares.
Motorista respeite o limite de ferocidade.
Luiz Renato Roble (datamaker@datamaker.com.br) é Designer, Consultor de Identidade Estratégica e Diretor de Criação da Datamaker (www.datamaker.com.br).
Por: Luiz Renato Roble
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